sábado, 5 de junho de 2010

Poluicão do ar em nossa Cidade

Perigo no Ar
Estudo da Fiocruz em parceria com a prefeitura identifica níveis surpreendentes de poluição atmosférica na capital

Por Mariana Rios
O tráfego intenso de automóveis e de ca­minhões de carga que chegam até o Porto de Salvador pode ser a causa da alta concentração de metais pesados na atmosfera na região do Co­mércio. A presença dos poluentes, considerados perigosos, foi identificada em estudo realizado pela prefeitura, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e divulgado ontem à imprensa na Secretaria Municipal de Planeja­mento, Urbanismo e Meio Ambiente (Seplam). A má qualidade do ar de Salvador surpreendeu os pesquisadores - chumbo, cádmio e zinco aparecem em dez pontos da capital, monitora­dos a partir da análise das partículas aderentes às escamas da bromélia Tillandsia usneoides, exposta por 45 dias.

À frente do estudo, iniciado em outubro passado, a bioquímica e farmacêutica Nelzair Vianna apontou não apenas o Comércio como área preocupante. Na Barra, a presença de cádmio causou surpresa. Acredita-se que o metal, que di­vide com o zinco a predominância na região, seja originário de Santo Amaro da Purificação, onde funcionou uma fábrica de pelotização de chum­bo (Cobrac/Plumbum), que expôs por 33 anos a população à exposição de metais pesados, como chumbo, cádmio, cobre e arsênio. Os motivos da origem dos poluentes são suposições e devem ser averiguados. “Os resultados preocupam. Esse estudo vai trazer um primeiro dado para conhecer a situação. Os poderes públicos devem implemen­tar ações que visem a redução dessas emissões. Esperávamos outra situação, mas não se pode esquecer que Salvador possui a terceira frota do país”, explicou Vianna. A frota soteropolitana é estimada em mais de 500 mil veículos.

Ela afirmou que os dados são preliminares e precisam ser corroborados, com outras amostras, em estações diferentes do ano.
No bairro da Pituba, metais como chumbo e cobre foram detectados pelo Departamento de Histologia e Embriologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) nas bromélias, vindas do Jardim Botânico do Rio - escolhidas porque apresentam características peculiares, como não ter raízes e ser atmosférica extrema, o que torna a absorção do ar mais eficiente.

Stella Maris foi considerado o bairro menos poluído. O resultado é oriundo da quantificação do metal no particulado, nome técnico atribuído à poeira em suspensão. Foram monitorados a qua­lidade do ar também no Dique do Tororó, Brotas e Beira-Mangue, no subúrbio ferroviário. Os dois primeiros apresentaram presença de metais pesados, mas numa concentração menor do que os outros bairros. Em Beira-Mangue, foi verificada a presença de cobre e manganês.

O superintendente municipal de meio am­biente, Juliano Mattos, explicou que a princípio, a intenção é expandir o sistema para avaliação em todas as estações do ano e também analisar a concentração de gases tóxicos. Ele declarou que a superintendência está em fase de captação de re­cursos, em torno de US$400 mil, para a aquisição de equipamentos e tecnologia já desenvolvidas pela Empresa de Proteção Ambiental Cetrel S.A para o diagnóstico de gases tóxicos.

“Iremos levar os dados do estudo para o Conselho Municipal de Meio Ambiente e com certeza a pesquisa vai impactar na definição das políticas públicas. A matriz da poluição de Sal­vador já sabemos que é a queima de combustível fóssil”, disse Mattos, que aventou a possibilidade de rodízio de veículos, conforme a placa, em bairros como Pituba e Comércio, e a utilização de biocombustível nos ônibus em novas linhas criadas. A partir de maio, novas bromélias serão colocadas nos bairros selecionados e em julho serão analisadas no Rio de Janeiro.

Segundo o pesquisador Marcos André Vannier, da Fundação Oswaldo Cruz - parceira da inicia­tiva com a Vigilância Sanitária do município e a Superintendência de Meio Ambiente (SMA) -, chumbo, cádmio e mercúrio são metais pesados considerados perigosos porque são lipossolúveis (dissolvem-se em gordura e possuem mais facilidade para chegar até as células humanas). “O ideal é que os gestores tomem conhecimento e impeçam a contaminação da população”, afirmou Vannier, destacando que problemas locomotores e neurológicos são desencadeados pelo acúmulo dessas substâncias no corpo.

Para o secretário municipal da saúde, Luís Eugênio Portela, que acompanhou a apresentação, Vianna declarou que é necessário combinar os dados do biomonitoramento com informações epidemiológicas. O próximo passo, disse a pesquisadora, é estudar o efeito do material particulado proveniente da poluição atmosférica sobre a população de Salvador, relacionando, principalmente, com as doenças respiratórias. O programa de pós-graduação de medicina e saúde da Ufba irá analisar as informações.

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